Fale sobre o Curso TODO MUNDO FAZ TEATRO. Como foi a implantação do curso?
FILINTO: O curso começou como uma atividade extra e depois foi se tornando a minha atividade principal. Tudo foi acontecendo lentamente, mas sempre com planejamento.
Quais as principais dificuldades enfrentadas?
FILINTO: A divulgação no início era muito fácil. Era tudo uma novidade. Mais tarde ela vai ficando complicada porque é preciso saber investir para obter respostas. E para saber investir é preciso experimentar, coisa que a nossa realidade econômica não permite com conforto.
Você percebeu ceticismo das pessoas quanto à proposta do curso?
FILINTO: Nunca. As pessoas sempre gostaram da idéia.
Você acredita que todo mundo pode fazer teatro? Você acredita que todo mundo é criativo?
FILINTO: Ao longo de 13 anos, nós provamos que todo mundo faz teatro e canta. Isso é inerente ao ser humano. Nem todo mundo vai ser uma atriz como Fernanda Montenegro ou um cantor como Frank Sinatra, mas todo mundo consegue se expressar artisticamente.
A criatividade está no nosso dia a dia desde a hora de se vestir para ir ao trabalho até a hora de escolher o que comer num jantar. Ser criativo é descobrir uma forma nova, mesmo que seja apenas para você. Alguns se manifestam criativamente nas artes, outros na tecnologia, na administração.
Comente o processo de desenvolvimento e criação de uma peça:
- Como você cria os personagens?
- Como surge o texto da peça?
- Qual é o melhor momento para você escrever?
- Como é o processo de identificação dos alunos com os personagens?
- Como se dá o ato da criação? É sempre da mesma forma? O que lhe motiva a criar?
FILINTO: O que me motiva a criar é o prazo curto. Quanto menos tempo eu tenho, mas criativo me sinto. A minha criatividade tem que estar a serviço de alguma coisa prática. Dificilmente eu fico construindo coisas que não terão aplicação imediata. Claro que surgem idéias em momentos não programados, mas normalmente eu as guardo para uma execução posterior.
No TODO MUNDO FAZ TEATRO a história e os personagens surgem a partir da turma de alunos. Perto do período da montagem eu deixo as minhas antenas ligadas para “captar” o desejo do grupo. A peça e os personagens têm que ser estimulantes e ao mesmo tempo confortáveis para os alunos.
Nem sempre o aluno se identifica com o personagem. Isso também acontece com o ator profissional. O negócio é pensar na história. Teatro é um trabalho de grupo, onde o mais importante é contar a história. Portanto, mesmo que eu não ame o meu personagem, preciso torná-lo significativo para a história, pelo grupo.
O trabalho do teatro ajuda a desenvolver o potencial criativo das pessoas?
FILINTO: Sem dúvida. O teatro é uma arte completa que envolve recursos de narração visuais, auditivos e sensoriais. Além disso, a experiência teatral é extremamente disciplinada e a disciplina dilui o ego, deixando o seu “eu” aflorar. E o “eu” – que é uma forma de chamar a nossa parte mais espontânea – é o canal para a criatividade.
Como você define/entende e percebe a criatividade? Como uma inspiração divina, como uma loucura, como uma genialidade intrínseca...
FILINTO: A criatividade está em todos nós. As pessoas têm mania de complicar as coisas, de achar tudo difícil. No TODO MUNDO FAZ TEATRO buscamos a descomplicação. Você não precisa ser um gênio para executar uma tarefa. Você tem que sintonizar com ela e aceitar os riscos, que são os erros, que é a forma de evoluir. A natureza é assim.
Quem lembra do aprendizado de dirigir um carro ou falar uma outra língua pode se relacionar com o que eu estou dizendo. Não adianta sonhar em acertar sempre. O erro faz parte do crescimento. Você se solta e passa a fluir com o que está fazendo. Vale mais a pena pegar “o jeito” do que executar com perfeição.
É próprio do ser humano ser incompleto. Nunca estamos prontos para nada. A vontade de estar sempre certo destrói qualquer possibilidade de criatividade.
Há uma conotação social no trabalho que você realiza?
FILINTO: O TODO MUNDO FAZ TEATRO se apóia nos ideais da ética cidadã: fazer o bem, cultivar as virtudes, buscar a verdade. No processo de grupo buscamos a participação de todos e o respeito pelas diferenças. Buscamos também estimular a gentileza ao máximo. |